O idioma é parte fundamental na manutenção e na expansão da cultura indígena. Quanto mais falado e visível aos olhos das pessoas, maiores as chances de propagação do idioma e aceitação nas comunidades. Aqui na América do Sul, há um evidente esforço do poder público nessa direção que vem dando bons resultados.

Hoje, Paraguai e Bolívia são bilíngues, fruto de uma política de estado. Está na constituição dos dois países: o espanhol não pode ser considerado a única língua oficial. Na Bolívia, são 36 idiomas reconhecidos desde 2009. No Paraguai, o espanhol e guarani são reconhecidos – cerca de 70% da população é bilíngue. Em 2010, entrou em vigor uma lei segundo a qual as línguas indígenas devem ser utilizadas na comunicação com o público pelos poderes executivo, legislativo e judiciário.

De acordo com Célia Godoy, diretora de Planejamento Linguístico da Secretaria de Políticas Linguísticas do Paraguai, o guarani é o idioma que identifica a cultura paraguaia. E manter o guarani vivo é um trabalho minucioso e constante. Na visão de Célia, a escrita e a gramática também são importantes para reforçar a cultura indígena.

Um exemplo nesse sentido é o dicionário de manjui lançado pouco tempo atrás no Paraguai. Para o professor e pesquisador Javier Carol, organizador do conteúdo, o dicionário significa que a língua existe para o Estado, e isso é importante para os falantes. Estima-se que o manjui seja falado por aproximadamente 3 mil pessoas.

Ainda na América do Sul, além dos citados Paraguai e Bolívia, vale lembrar o Peru, com 44 línguas originárias, e o Equador, com catorze. Nesses países, a depender da região, pode-se escutar línguas indígenas sendo faladas com frequência.

Brasil ainda tem muito por fazer

O pesquisador de cultura indígena e professor da USP Eduardo Navarro considera que o Brasil perdeu a chance de se tornar um país bilíngue a exemplo do Paraguai porque faltaram atitudes governamentais, como no país vizinho. Ao mesmo tempo, porém, elogia ações do meio acadêmico e de ONG´s no sentido de preservar a cultura indígena.

Segundo ele, as línguas só sobrevivem se, além de faladas, forem escritas. “Elas precisam ser lidas ou suas palavras serão substituídas pelo português, como vem ocorrendo. Sabemos que proteger a língua é proteger a cultura. E as culturas não podem morrer”, comenta o especialista.

No entanto, um caso interessante de resistência chama a atenção aqui no Brasil. A Aldeia Mata Verde Bonita é uma comunidade guarani presente em Maricá (RJ) em uma área preservada de 90 hectares. A tribo, cujo idioma falado é o mbya, uma variação do guarani, se instalou na região depois de receber um convite da prefeitura, uma vez que um incêndio criminoso acabou com todos os bens materiais da aldeia, que ficava na praia de Camboinhas, em Niterói.

O cacique Tupã, líder da comunidade, faz o que está a seu alcance para preservar a língua indígena e, posteriormente, sua cultura. “A preservação da língua começa pela prática. Ela está nas nossas moradias, plantio e cânticos. Vamos fazer as nossas ocas de palha, o plantio orgânico, sem agrotóxicos, vamos pescar, vamos nos pintar. Vamos ter orgulho de mostrar quem somos nós de verdade, dessa maneira vamos ser respeitados”, acredita.

Na comunidade liderada por Tupã, o guarani mbya é a primeira língua aprendida pelas crianças, que só estudam o português a partir dos sete anos de idade.

Andréa Cunha, secretária de cultura de Maricá, diz que a presença da Aldeia Mata Verde Bonita é uma maneira de resgatar a herança cultural indígena da região. “É uma oportunidade da nossa cidade fazer o resgate e valorizar as culturas tradicionais, criando um contraponto com a sociedade atual, tão marcada pela exploração da natureza”, encerra.

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