O filme Wiñaypacha pode ser entendido como uma verdadeira obra de arte. Motivos para tanto não faltam. Trata-se do primeiro longa-metragem gravado na língua aimará, é protagonizado por uma mulher que nunca sequer havia visto um filme e toca em questões profundas, com críticas sociais ao modo de vida moderno. 

A prova da relevância dessa obra está no reconhecimento. Logo em sua obra de estreia, o filme do cineasta peruano Óscar Catacora, que também domina a língua aimará, ganhou os prêmios de Melhor Jovem Diretor, Melhor Obra e Melhor Fotografia no Festival de Cinema de Guadalajara (México). E foi o indicado peruano aos prêmios Oscar e Goya na categoria de melhor filme estrangeiro e ibero-americano de 2019.

Pormenor: a obra integralmente gravada na língua aimará não tem efeitos especiais, tampouco música para dar aquele tom peculiar às obras cinematográficas, mas, mesmo assim, foi muito bem aceito pela crítica. O ponto alto, sem dúvida, está na narrativa comovente, contada em 96 planos fixos, a partir de um casal octogenário, protagonizados por Vicente Catacora e Rosa Nina.

Sol e Lua à espera do filho

Gravada perto da montanha Allincapac, que fica a mais de 5 mil metros acima do nível do mar, a dupla, que vive sob as intempéries do tempo e da pobreza extrema, fala sobre a expectativa da volta de seu filho amado, que emigrou. Essa é uma das principais mensagens de Wiñaypacha. Os personagens Sol e Lua (os respectivos nomes na língua ancestral) mostram forte conexão junto à Pachamama, a Mãe Terra. E essa é mais uma beleza evidente do filme.

Outro ponto interessante de Wiñaypacha está nos dois atores. Vicente é avô materno de Óscar, e apresentava alguma familiaridade com o tema do filme, já que é membro vivo da família. Até por isso se prontificou a auxiliar o neto e protagonizar a obra. Já Rosa, conforme relata Óscar, acabou sendo uma indicação de um amigo por duas razões principais: suas qualidades artísticas e sua personalidade bastante sociável.

“Fomos à casa dela e ela aceitou imediatamente nosso convite. A senhora nunca tinha visto um filme e nunca tinha ido a uma sala de cinema. Lembro bem quando me disse: ‘Não sei muito bem o que me estão propondo, mas vou apoiá-los’. Para nós foi incrível receber essa resposta. E falar em aimará com ela foi chave”, disse Catacora.

Ele acrescenta que foram seis meses de trabalho muito intenso para preparar os atores até as gravações. Em um primeiro momento, eles não acertavam muito bem os diálogos, acabam improvisando em muitos momentos, o que foi encarado com naturalidade, uma vez que atuar era algo novo para eles.

Sensibilidade à temática social

A temática central do filme surgiu das constantes visitas do cineasta a povoados andinos. Foi lá que Óscar percebeu que as pessoas da terceira idade sofriam por conta do abandono. Isso acontece, segundo ele, porque os filhos acabam se mudando para as grandes cidades e as visitas aos pais se mostravam cada vez menos frequentes. Juntando essa percepção com o respeito que sempre nutriu pelos mais velhos, veio a ideia da obra.

“No Peru e em outras partes do mundo há muitas pessoas que nunca visitam seus pais e avós. É uma realidade que existe. Muita gente está perdendo o respeito pelos mais velhos. Ignoram e os maltratam. Na cidade e nas montanhas, um adulto velho é um estorvo. Mas na cultura andina não existe isso: quanto mais velhas, mais veneradas as pessoas são”, afirma Catacora.

Por fim, o cineasta também revela sua crítica ao Estado, embora reconheça algum esforço dos líderes do país com relação aos povos indígenas. “Sim, é uma crítica ao Estado que abandona os povos originais. É um olhar político para que o Estado se preocupe com essas populações. O Peru é multicultural, tem cerca de 49 línguas nativas. Algumas estão desaparecendo pouco a pouco. O Estado agora está promovendo a recuperação e preservação de algumas”, encerra.

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